domingo, 31 de agosto de 2014

Capítulo Dezesseis - Visão do Passado

Sentada em minha cama recordava de cada detalhe mínimo daquela visão. Estudava mentalmente cada passo, cada expressão de Will. Tudo aquilo havia se realizado. Senti um arrepio percorrer todo meu corpo, um desespero incontrolável sufocava meu peito. Ouvi duas batidas na porta e, mesmo sabendo que era impossível, desejei profundamente que fosse Caroline. Levantei-me num pulo e fui rapidamente até a porta, agarrei a maçaneta e a puxei. Thiago estava parado com um sorriso no rosto que transmitia felicidade e segurava duas bolsas de sangue, mas assim que seus olhos me fitaram seu sorriso se desmanchou.


            -Kelly, você está bem? – Sua voz soou preocupada.
            -Estou sim. – Puxei toda a porta e dei passagem para ele – Pode entrar. Me pegou de surpresa.
            -Se for incomodar, não se preocupe.
            -Claro que não. – Sorri.
            -Com licença. – Ele sorriu de volta e entrou lentamente. Estendeu uma bolsa de sangue para mim e eu esbocei um sorriso enquanto a apanhei – Você tem certeza que está bem?
            -Estou bem, Thiago. – Sorri o melhor que pude – Só com a mente um pouco longe.
            -Ia te convidar para dar uma volta, mas acho que não é um bom momento. – Ele deu uma risadinha desapontada.
            -Me soa interessante. – Talvez fosse bom dar uma volta e esquecer-me do ocorrido – Para onde vamos?
            -Não se preocupe. – Ele abriu um sorriso compreensivo e acariciou minha bochecha com sua mão direita – Talvez amanhã após a aula. – Eu assenti e ele se aproximou lentamente – Descanse sua mente agora.
            -Me desculpe. – Me senti realmente culpada.
            -Sem problemas. – Thiago beijou demoradamente minha testa, depois sorriu para mim por alguns instantes e saiu fechando a porta do quarto.

            Caminhei com passos rápidos até a porta e a tranquei. A bolsa de sangue que Thiago havia trago ainda estava na minha mão então fui cambaleante e lentamente em direção à cama e me sentei. Rasguei a ponta do saquinho com os dedos e inalei, sem aproximar do meu rosto. Aquela sensação havia voltado, minha vista ficou turva e eu sabia que uma nova visão me esperava.
            Willian estava parado perto da porta e minha mãe muito próxima a ele soluçava com as mãos no rosto.

            -Will! – Seus soluços eram altos e ela suplicava – Me ajude, eu não aguento mais!
            -Tab... – Willian estava em choque – Me diga como...

            Então ela parou de chorar e ficou imóvel. Os olhos de Will se arregalaram e ele estava desesperado. Segurou nos ombros de minha mãe a começou a chacoalha-la enquanto gritava o nome dela e pedia para ela parar com aquilo. Will a soltou rapidamente quando ela abaixou os braços e abriu um sorriso estranho.

            -Sangue! – Ela berrou com uma voz estridente, irreconhecível e até demoníaca. Olhou para a cama, um bebê enrolado num cobertor havia começado a chorar e só então eu o notei. Will se arrepiou quando minha mãe olhou para o bebê e começou caminhar rapidamente até a cama, antes que ela o alcançasse Will pegou-o em seus braços.

            -No que está pensando Tabata?! – Seu tom mudou, não estava mais temeroso, estava na ofensiva.
            -Sangue... – Ela repetiu sem berrar, mas ainda com aquela voz horrível. Correu perdidamente até a janela e pulou de lá.

            Will começou balançar o bebê para que se acalmasse e depois o apertou contra seu peito, apertou os olhos com decepção depois sussurrou ao ouvido do bebê: “Prometo que cuidarei de você para sempre enquanto eu viver e também além da minha vida. Vou te proteger de qualquer coisa, Kelly”. Uma lágrima fina escorreu de um dos seus olhos.
            Com a respiração ofegante voltei à realidade. Engoli o seco e encarei a bolsa de sangue intacta em minhas mãos. Minha mente estava vazia, eu não compreendia o que supostamente deveria pensar. Minha cabeça doeu.
            Puxei profundamente o ar e dei longos goles naquela bolsa de sangue sem pensar em nada. Terminei todo o sangue de forma rápida, depositei o saquinho sobre o criado mudo e me deitei na cama, então as imagens da visão voltaram como um filme que se repete sem pausa. Vi algo que já aconteceu, tive uma visão do passado.
            Analisando pela primeira vez percebi que ela havia acontecido nesse quarto, no mesmo lugar em que estou agora. O espaço estava idêntico ao de agora: distribuição dos móveis, a cortina e até o tapete aos pés da cama, tudo. Minha mãe estava desesperada e repentinamente saiu do controle, Willian mudou suas atitudes rapidamente e eu era apenas um bebê. Mas o que de fato fez com que a minha mãe tivesse aquela expressão maligna e aquela voz estridente?
            Apertei os olhos com força e tentei tirar aquela imagem da minha mãe da cabeça, ela não era assim! Ela era meiga, amorosa, mãe... Sua voz era doce e suas canções de ninar ecoavam constantes na mente me recordando do quão gentil era. Um sorriso límpido, espontâneo e feliz. Minha mãe jamais se assemelharia a uma criatura grotesca, aquilo não era ela e nem de longe poderia ser.
            Abri os olhos novamente e vi apenas o teto do quarto. Recordei-me mais uma vez do que havia acabado de assistir e percebi pela expressão de Will seu alívio quando minha mãe pulou pela janela. Ele não se preocupou em saber se ela teria se machucado, pareceu algo rotineiro, ela simplesmente se foi.
            “Ela perdia o controle quando sentia cheiro de sangue” – A voz de Will ecoou na minha cabeça. Não me lembrei de ver sangue em momento algum na visão, mas era exatamente o que ela procurava. “Trouxemos você junto com ela e um dia Tab teve uma crise, surtou” – Surtou...
            Agora tenho certeza que aquela jamais poderia ser minha mãe e, também, que Willian ainda está escondendo algo de mim. Me recordei da sua naturalidade quando tive a primeira visão e comparei com o desespero de Caroline quando falou sobre isso. A visão seria algo ruim e incomum ou algo bom e normal? Algo estava muito errado...
            Minha mente não se prendia a um único assunto. Um turbilhão de pensamentos a invadia e fazia com que eu ficasse cada vez mais confusa. Virei-me na cama e cruzei os braços me debruçando sobre eles. Será que a visão era um efeito colateral da transformação? Qual será o critério para que isso aconteça?
            Apertei os olhos e depois respirei fundo. Droga. Quero respostas!

•••

Sem dúvida alguma eu apaguei. Acabei de ser acordada por batidas na porta. Abri os olhos, estava um pouco confusa e me levantei meio zonza, caminhei com passos bambos até a porta e a abri. Will estava sorrindo do outro lado.

-Te acordei?
-É. – Ri um pouco – Acabei dormindo sem querer.
-Você está melhor?
-Sim, mas... – Mordi o lábio inferior – Tenho perguntas.
-Você sempre tem perguntas. – Will riu alto.
-Sim. – Assenti.
-Vamos até o escritório, ainda não acabou meu expediente. – Ele revirou os olhos com um sorriso no rosto e caminhou em direção à escada.
-É um pouco estranho você trabalhar. – Fechei a porta atrás de mim e segui Will.
-Não é bem um trabalho, apenas tenho algumas responsabilidades. – Ele me explicou enquanto descia os lances de degraus ao lado dele.
-Ui, senhor responsável... – Zombei.
-Ei! – Ele me olhou feio – Senhorita engraçadinha. – Ele retrucou enquanto alcançava a maçaneta da porta do seu escritório.

Apenas ri dele, ele abriu a porta e me deu passagem entrando logo após. Me sentei naquela poltrona, minha preferida. Ele foi até a sua cadeira atrás da escrivaninha e organizou uma pilha de papéis.

-Comece seu interrogatório.
-Logo depois que você saiu fui para o meu quarto... – Olhei pela janela atrás dele – E adivinha...
-Algo me diz que você teve uma visão. – Ele se levantou me olhando atentamente e caminhou devagar até a porta que estava aberta.
-Sim, tive outra visão. – Balancei os ombros e me virei para olhá-lo ao lado da porta. Ele murmurou algo e segurou na maçaneta – Mas foi diferente. Foi uma visão do passado. – Tentei parecer mais tranquila possível.
-Do passado...? – Ele repetiu em tom baixo e fechou a porta, retornando para sua cadeira. Eu o acompanhei com os olhos.
-Sim, do passado. – Coloquei os pés em cima da cadeira como sempre – Era com você, minha mãe e eu. No meu quarto. Aqui.
-O quarto daqui? – Ele pareceu confuso.
-Sim.
-Mas... Sua mãe e você?
-Eu deveria estar com poucos meses.
-Ah, sim... – Ele apoiou os cotovelos sobre a escrivaninha e o queixo sobre as mãos entrelaçadas. Refletiu um pouco e arqueou uma sobrancelha enquanto me olhava.
-O problema é que ela estava te pedindo ajuda e de um instante para o outro se tornou um monstro. A voz dela ficou ruidosa e ela queria sangue. Você me salvou enquanto ela pulou pela janela.
-Esse dia... – Ele fechou os olhos suavemente – Foi terrível.
-Eu vi. – Suspirei pesado – O que aconteceu com a minha mãe para que ela ficasse daquele jeito?
-Eu já te disse. A transformação dela não foi normal, ela saia do controle.
-Mas por que Will? Por que ela saia do controle? Ela estava desesperada por ajuda, o que aconteceu? – Abaixei as pernas e me inclinei para frente.
-Ainda não temos certeza. Talvez ela simplesmente não tenha se adaptado.
-Por que eu sinto que você está escondendo algo?
-Você está confusa Kelly, isso é normal. – Will suspirou e balançou a cabeça.
-Quero que você me conte sobre as visões.
-O que exatamente? – Ele me lançou um olhar desconfiado.
-Quantos Vampiros têm visões? Por que temos visões?
-Você é a única que teve visões até agora. – Will deu de ombros.
-Mentira. – Disse rispidamente.
-Como? – Ele riu com um pouco de ironia.
-Você age normal demais Will, é óbvio que isso já aconteceu antes...
-Talvez você tenha razão. – Ele olhou ao redor da sala – Tudo tem sido novidade para nós.
-Por que você não fala logo? – Implorei com o olhar.
-Aconteceu uma única vez apenas, foi algo inusitado e assustador. Porém, aconteceu depois de inúmeros acontecimentos inéditos.
-Comigo não foi assim. – Franzi a testa.
-Não. – Ele balançou negativamente a cabeça – Por isso seria bom que ninguém mais soubesse.
-Heitor sabe?
-Sim, ele sabe. Está estudando o que pode ter te causado isso.

Assenti e fechei os olhos. Will trocou o assunto. Começou a falar sobre as aulas e que Jorge estaria disponível a qualquer momento, disse que Nicolas não estava chateado e outras coisas mais...

Mas a minha mente badalava. Ouvia um milhão de teorias minhas criadas sobre mim. Nada fazia sentido ainda.

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